Vídeo de ataque que matou grupo de 15 socorristas palestinos em Gaza contradiz versão de Israel; assista
Registro foi encontrado no celular de um paramédico que foi achado junto de outros 14 trabalhadores humanitários em uma vala comum O vídeo do ataque que matou um grupo de socorristas na Faixa de Gaza no final de março foi publicado pelo Crescente Vermelho Palestino neste sábado. O registro, encontrado no celular de um paramédico que foi achado junto de outros 14 trabalhadores humanitários em uma vala comum no enclave palestino, mostra que as ambulâncias e o caminhão de bombeiros nos quais viajavam estavam claramente identificados e com as luzes de emergência ligadas quando foram atingidos por uma saraivada de disparos por tropas israelenses.
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No início da semana, o tenente-coronel Nadav Shoshani, um porta-voz militar do Estado judeu, disse que as forças israelenses não “atacaram aleatoriamente” uma ambulância. Segundo ele, os veículos avançaram em direção às tropas de Israel de “maneira suspeita”, sem faróis ou sinais de emergência acesos, o que levou aos disparos. O coronel afirmou, ainda, que nove dos mortos eram militantes palestinos. As autoridades israelenses não comentaram o assunto após a divulgação do vídeo.
A gravação, que tem cerca de sete minutos e foi apresentada ao Conselho de Segurança da ONU na sexta-feira, foi feita na cidade de Rafah, no sul de Gaza, no início da manhã de 23 de março. Filmado da parte da frente de um veículo em movimento, o vídeo mostra o comboio de ambulâncias e um caminhão de bombeiros, claramente identificados, com os faróis de emergência ligados, dirigindo-se para o sul por uma estrada ao norte de Rafah. Os primeiros raios de sol ainda estavam aparecendo.
Vídeo de ataque que matou grupo de socorristas em Gaza contradiz versão de Israel
O comboio para ao encontrar um veículo que havia saído da estrada — uma ambulância que tinha sido enviada anteriormente para socorrer civis feridos e que foi atacada. Os novos veículos de resgate desviam para o acostamento. Trabalhadores de resgate, pelo menos dois deles com uniformes visíveis, são vistos saindo do caminhão de bombeiros e de uma ambulância marcada com o emblema do Crescente Vermelho, e se aproximando da ambulância parada. Então, sons de tiros começam.
Uma enxurrada de disparos é vista e ouvida no vídeo atingindo o comboio. A câmera treme, o vídeo escurece. Mas o áudio continua por cinco minutos, e o barulho incessante dos tiros não cessa. Um homem diz, em árabe, que há israelenses presentes. O paramédico que grava o vídeo é ouvido recitando repetidamente a shahada, a declaração de fé muçulmana, que se pronuncia diante da morte. “Não há outro Deus senão Deus, e Maomé é seu mensageiro”, diz ele, que também pede perdão a Deus e afirma saber que está prestes a morrer.
— Perdoe-me, mãe. Esse foi o caminho que escolhi, ajudar as pessoas — ele diz. — Allahu akbar (Deus é grande).
Ao fundo, ouvem-se vozes em meio à comoção de trabalhadores humanitários em desespero e soldados gritando comandos em hebraico. Não está claro o que eles dizem. A porta-voz da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, Nebal Farsakh, disse que o paramédico que filmou o vídeo foi posteriormente encontrado na vala comum com um tiro na cabeça. Seu nome ainda não foi divulgado porque tem parentes vivendo em Gaza com receio de represálias israelenses.
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Em entrevista coletiva realizada na sede da ONU, o presidente da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, Younis al-Khatib, e seu vice, Marwan Jilani, disseram aos jornalistas que as evidências reunidas pela organização — incluindo o vídeo e o áudio do episódio, além de exames forenses dos corpos — contradizem a versão apresentada por Israel. O Hamas também classificou o vídeo como “uma prova irrefutável”.
“[A gravação] também demonstra uma tentativa deliberada de encobrir o crime, enterrando as vítimas em valas comuns e ocultando a verdade”, acrescentou o grupo em declaração neste sábado.
Crimes de guerra
As mortes dos trabalhadores humanitários têm gerado escrutínio e condenação internacional nos últimos dias. A ONU e o Crescente Vermelho Palestino afirmaram que os trabalhadores não portavam armas e não representavam ameaça. Younis al-Khatib ressaltou que os corpos foram atingidos a curta distância, e que Israel não ofereceu informações sobre o paradeiro dos socorristas desaparecidos durante dias, mesmo sabendo, segundo ele, “exatamente onde eles estavam”.
— Seus colegas estavam em agonia, suas famílias em agonia. Ficamos no escuro por oito dias.
Demorou cinco dias após o ataque para que a ONU e o Crescente Vermelho negociassem com o Exército israelense uma passagem segura para buscar os desaparecidos. No domingo, equipes de resgate encontraram 15 corpos, a maioria em uma vala comum rasa, junto de ambulâncias destruídas e um veículo com o logotipo das Nações Unidas. Um integrante do Crescente Vermelho Palestino segue desaparecido, e Israel não informou se ele está detido ou foi morto, disse al-Khatib.
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A área onde o comboio para no vídeo foi registrada por imagem de satélite algumas horas depois e analisada pelo Times. Naquele momento, as cinco ambulâncias e o caminhão de bombeiros haviam sido removidos da estrada e agrupados. Dois dias depois, uma nova imagem de satélite mostrou que os veículos aparentemente haviam sido enterrados. Próximo à terra remexida havia três tratores militares israelenses e uma escavadeira. Além disso, tratores ergueram barreiras de terra na estrada nos dois sentidos a partir da vala comum.
Ahmad Dhair, médico legista que examinou alguns dos corpos no hospital Nasser, em Gaza, afirmou que quatro dos cinco trabalhadores humanitários que analisou foram mortos com vários disparos, incluindo ferimentos na cabeça, no tronco e nas articulações. Um paramédico do Crescente Vermelho que estava no comboio foi detido e depois libertado pelos militares israelenses, e forneceu um relato testemunhal dos tiros disparados pelas forças de Israel contra as ambulâncias, segundo a ONU e a Sociedade do Crescente Vermelho.
Dylan Winder, representante da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho nas Nações Unidas, disse que foi o ataque mais mortal contra trabalhadores da organização em qualquer parte do mundo desde 2017. Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, declarou que uma investigação independente deve ser conduzida, e que o episódio levanta “novas preocupações sobre a possível prática de crimes de guerra por Israel”.