Expansão de ligas nacionais, como NFL e NBA, pelo mundo rompe as fronteiras do esporte
Abolir fronteiras. O mercado esportivo tem seguido por esse caminho há cinco décadas na esteira da globalização. A transmissão de ligas nacionais em outros países foi um dos primeiros passos. Turnês de amistosos e pré-temporadas deram sequência ao processo. As redes sociais estreitaram ainda mais as relações com os objetos de desejo. E o movimento seguinte foi natural: levar o jogo oficial da temporada ao fã de todas as partes do planeta.
É o que tem feito com sucesso a NBA e a NFL, e o futebol busca seguir a trilha, porém encontra mais entraves no percurso. Na semana passada, por exemplo, a liga de futebol americano anunciou a primeira partida da competição no Maracanã, tendo o Dallas Cowboys como mandante. Será um dos nove jogos da da NFL fora da América do Norte em 2026, superando o recorde de 2025, com sete. No futuro, o desejo é de 16 confrontos espalhados em todos os continentes.
A NBA também entendeu que o futuro do negócio está fora dos limites dos Estados Unidos e do Canadá. O basquete americano já vem sendo difundido pelo mundo há anos e teve partida da temporada regular no Japão nos anos 1990. O momento, no entanto, é outro. Nos últimos anos, a liga de basquete viu a audiência interna cair e uma certa insatisfação local com o tipo de jogo dentro de quadra. Em compensação, a receita internacional é próxima a 15% dos cerca de 10 bilhões de dólares totais — e há projeção de crescimento.
Não é à toa que alguns horários dos jogos levam em consideração o fuso do mercado europeu e asiático, e Berlim sediou, mês passado, partida da temporada regular pela primeira vez. Londres e Paris, que já faziam parte do programa NBA Global Games, também receberam o basquete americano em janeiro. Há, inclusive, a discussão da criação de franquias na Europa.
— Isso tudo foi uma construção, não foi da noite para o dia. Chegou a um ponto que precisou expandir. Essas ligas perceberam, por meio de estudos, que existe uma legião enorme de torcedores em outros locais. E sempre buscam receitas e formas de potencializar esse produto fora dos EUA — diz Fábio Wolff, sócio diretor da Wolff Sports.
Ele aponta a pandemia como um acelerador do processo em curso nas últimas décadas.
— Aumentou o desejo de experimentar ao vivo, seja a oportunidade de ir a um show, a um jogo da NFL. O mundo entendeu que é importante viver o dia de hoje. Quando voltou, a média de publico de vários esportes aumentaram. Há estudos que mostram que os consumidores preferem investir dinheiro na experiência do que em bem físico. Isso ajuda muito as ligas expansionistas — afirma Wolff.
Futebol americano universitário terá jogo no Nilton Santos
Emanuelle Araújo/College Football Brasil
Até ligas menos óbvias também seguem o movimento expansionista. Em agosto, o Estádio Nilton Santos vai receber uma partida do futebol americano universitário (Virginia Cavaliers x North Carolina State) de olho nesses novos consumidores. A primeira experiência fora dos EUA foi na Irlanda ano passado. O sucesso foi tanto que se repetirá em 2026.
— Mais de 20 mil americanos saíram dos EUA e foram para a Irlanda. Foi o jogo de maior audiência daquela semana. No Rio, teremos vários eventos dentro desse jogo. As bandas marciais, o show das cheerleaders, o esquenta dos americanos em estacionamentos — conta Bruno Guilherme, CEO da Brasil Sports Business e organizador do College Football Brasil.
O futebol tem tentado quebrar as fronteiras, mas não na mesma velocidade que as ligas americanas. Resistência local e questões logísticas ainda são fortes barreiras. Os clubes europeus conseguem expandir território com pré-temporadas fora do continente, levando seus astros sobretudo para a Ásia. A Supercopa da Espanha, por exemplo, tem sido disputada na Arábia Saudita desde 2020 (exceção de 2021 em virtude da pandemia).
Em dezembro de 2025, estava previsto o confronto entre Barcelona e Villarreal, em Miami, pela LaLiga. O jogo teve aprovação da federação espanhola, mas após críticas de clubes, jogadores e protestos de torcedores, a liberação foi cancelada. Um dos argumentos foi a violação da integridade esportiva.
Barcelona comemora título da Supercopa da Espanha, em fevereiro, sobre o Real Madrid, que, agora, se opõe à realização de partidas fora do continente
AFP
A LaLiga, que organiza o Campeonato Espanhol transmitido em todos os continentes, entende que o mercado atual necessita dessa expansão para se manter atrativo mundialmente. Em nota, a entidade reforça que o impacto de uma única partida por temporada fora da Espanha seria benéfica do ponto de vista comercial e compatível com a essência da competição.
“Este passo também é uma questão de competitividade do ecossistema: se outras grandes ligas e competições, como a NFL ou a NBA, já levam partidas oficiais para fora de seu território, é lógico que o futebol espanhol explore fórmulas proporcionais para conectar-se com seus seguidores internacionais e reforçar seu posicionamento global”, diz em nota.
Brasil longe do movimento
O Brasil, que ainda não possui uma única liga organizada, está passos atrás desse movimento. Não há qualquer discussão sobre o assunto, mas entende-se que o futebol brasileiro precisa se colocar de maneira mais incisiva no exterior.
— É um passo fundamental. Assim como outras ligas no mundo já fazem, casos da La Liga, da Bundesliga e da Premier League, a Liga brasileira precisa atravessar fronteiras de uma forma muito mais rentável e monetizada do que é hoje. É um tema (jogar fora do país) que ainda precisa ser avaliado por todos, mas antes disso existem passos anteriores que precisam ser dados para chegarmos a esse nível — analisa Alessandro Barcelos, presidente da Futebol Forte União (FFU) e do Internacional.