Museu Britânico retira palavra 'Palestina' de exposições e diz que termo não é 'neutro' para nomear região
O Museu Britânico removeu a palavra “Palestina” de parte de suas exposições em galerias dedicadas ao Oriente Médio. A alegação é que o termo vinha sendo aplicado em mapas e painéis informativos de maneira imprecisa e que já não era historicamente “neutro”. A decisão da instituição de Londres ocorre após uma associação de advogados vinculados a Israel se manifestar, afirmando que a terminologia poderia “obscurecer a história de Israel e do povo judeu”.
O termo aparecia principalmente em textos explicativos que identificavam a costa leste do Mediterrâneo como Palestina. Em alguns casos, indivíduos eram descritos como tendo “origem palestina”.
Diante disso, o grupo UK Lawyers for Israel encaminhou uma carta ao diretor do museu, Nicholas Cullinan, apontando questionamentos sobre a utilização do termo para designar toda a região. “Aplicar retrospectivamente um único nome, ‘Palestina’, a toda a região, ao longo de milhares de anos, apaga mudanças históricas e cria uma falsa impressão de continuidade”, dizia o texto. “Isso também tem o efeito cumulativo de apagar os reinos de Israel e de Judá, que surgiram por volta de 1000 a.C., e de reformular as origens dos israelitas e do povo judeu como se derivassem erroneamente da Palestina.”
Fachada do Museu Britânico
Daniel Leal-Olivas/AFP
De acordo com o grupo, a adoção dessa nomenclatura dava a entender a existência de uma “região antiga e contínua chamada Palestina”. Os advogados também solicitaram que o Museu Britânico revisasse as suas coleções e ajustasse as descrições das peças, para que denominações como Canaã, os reinos de Israel e Judá ou Judeia fossem empregadas conforme o período histórico abordado.
Troca de palavras
A instituição, porém, afirma que a atualização foi realizada somente após consultas ao público sobre a terminologia, em pesquisas realizadas no ano passado. Até o momento, itens como um painel nas galerias do Egito já foram alterados: no lugar de “ascendência palestina” lê-se “ascendência cananeia”.
O museu sustenta que, embora o termo “Palestina” esteja consolidado na academia ocidental e do Oriente Médio desde o fim do século XIX para nomear a região em questão, reconhece que a palavra já não pode ser considerada neutra, também em razão das implicações políticas sobre o território.
“Nas galerias do Oriente Médio, para mapas que mostram regiões culturais antigas, o termo ‘Canaã’ é o mais adequado para o sul do Levante no final do segundo milênio a.C.”, disse um porta-voz ao jornal britânico The Guardian. “Utilizamos a terminologia da ONU em mapas que apresentam fronteiras modernas, como Gaza, Cisjordânia, Israel e Jordânia, e empregamos ‘palestino’ como identificador cultural ou etnográfico quando apropriado.”
Após a decisão do museu, uma petição lançada na internet no último domingo já reúne cerca de 7 mil apoiadores para que o Museu Britânico volte atrás. O documento afirma que a ação “não é respaldada por evidências históricas e contribui para um padrão mais amplo de apagamento da presença palestina na memória pública”.
Os críticos da atualização institucional ainda argumentam que o termo “Palestina” é usado há mais de dois milênios, aparecendo em registros como em Heródoto, no século V a.C., sob a forma “Palaistinê”, mapas europeus na Idade Média e em “Otelo”, de William Shakespeare, que é considerado “um marco do patrimônio cultural britânico”.