Vizinhos em risco: vacina da dengue ainda demora para chegar à América Latina
Ainda neste ano, a expectativa é que o Brasil ultrapasse a cota de 25 milhões de doses da vacina contra dengue em dose única desenvolvida pelo Instituto Butantan. Com isso, se inaugura um novo momento de combate à doença, cujo volume de casos em 2025 chegou a 1,6 milhão, conforme o painel do Ministério da Saúde. Outros países latinos, porém, ainda não contam com previsibilidade de quando as vacinas de única dose podem chegar, embora tenham outros arsenais para combater a doença, como os mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia (que impede a disseminação do vírus da dengue, zika e chikungunya) e o uso da vacina da Takeda.
A razão dos países latinos ainda não terem previsão de acesso às vacinas dose única da dengue tem a ver com o desenvolvimento de uma nova vacina para a mesma doença, também em dose única, que está na última etapa de testes, mas ainda sem data para entrar com pedidos junto às agências reguladoras. Trata-se da candidata à vacina desenvolvida pela MSD, farmacêutica que no final do ano de 2018, fechou um acordo com o Instituto Butantan.
Na época, a farmacêutica e o instituto firmaram um acordo que traria uma injeção de recursos ao desenvolvimento da vacina brasileira. Além de estabelecer um acerto entre as duas partes para que houvesse partilha de conhecimento científico. Ambas as vacinas tinham como base quatro cepas de vírus da dengue atenuados preparadas pelo National Institute of Health (NIH) nos Estados Unidos.
Primas
Ou seja, tanto o instituto quanto a farmacêutica desenvolveram vacinas que são como “primas”. Tratam-se de diferentes formulações, mas com origens semelhantes — justamente as linhagens do vírus inativadas pelo NIH. Do acordo, ficou combinado que o instituto dominaria o mercado brasileiro com exclusividade, com a MSD focando em todo o resto do mundo. É o que explicou German Anez, líder do desenvolvimento clínico da vacina de dengue na MSD, em entrevista ao GLOBO.
— Embora venham do mesmo laboratório, da mesma fonte e das mesmas construções, a formulação final e o processo de fabricação é que (efetivamente) definem os produtos. No caso de materiais vivos atenuados, como essas vacinas, o processo de fabricação é o que representa o produto — explica Anez. — Nosso contrato com o Butantan define os territórios. Assim, o Brasil é um território exclusivo do Butantan, e o restante do mundo é onde planejamos comercializar.
Anez diz, contudo, que a empresa presta atenção às necessidades que possam ser levantadas por entidades como a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a Organização Mundial de Saúde (OMS). E que não comentaria eventuais discussões com o Butantan sobre, por exemplo, oferecer as vacinas aos países vizinhos — uma intenção que o Butantan já demonstrou ter, justamente por contar com uma vacina aprovada.
— Não estou pronto para comentar eventuais negociações que possamos estar tendo com o Butantan a esse respeito. Mas posso afirmar que estamos prontos para apoiar a Opas, a OMS ou qualquer instituição de saúde pública que precise e solicite nosso apoio — afirmou.
Nesse momento, a vacina da MSD está na fase 3 de desenvolvimento — a última antes de pedir autorização de uso às agências reguladoras. A etapa contará com a participação de 12 mil voluntários da Indonésia, Malásia, Tailândia, Filipinas, Singapura e Vietnã. Com planos de começar a aplicação em Porto Rico ainda neste trimestre. A etapa começou no meio do ano passado e, conforme determinação da OMS, acompanhará os participantes de dois a cinco anos após receberem a vacina. Ou seja, ainda terá um tempo de desenvolvimento adiante até que chegue às agências.
— Este é um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo. São 12 mil participantes e eles são incluídos independentemente do status basal, ou seja, se tiveram exposição à dengue anterior — explica.
Vale dizer que o Brasil recebeu a vacinação piloto da vacina de dose única da dengue em três cidades para verificar quando o imunizante atingirá a imunidade coletiva, que é quando a imunização da comunidade reduz a disseminação do vírus.
Batalhas locais
Em outras áreas da América Latina, onde não há previsão de chegada das novas vacinas, as armas disponíveis são outras. Em nota, a Opas informou que “por meio de um mecanismo de compras conjuntas, chamado Fundos Rotatórios Regionais, tem facilitado o acesso de países das Américas a diversas vacinas, incluindo a vacina contra dengue do fabricante Takeda”.
A farmacêutica japonesa Takeda, por sua vez, informou que, além do fundo rotatório, há países que também adquiririam, por conta própria, volumes de vacina. Esta opção de imunizante, vale dizer, requer duas doses de aplicação. Nesse âmbito, a Argentina adquiriu 1,7 milhão de doses e a Colômbia 165 mil. Pelo Fundo Rotativo da Opas, Peru (445 mil doses), Honduras (213 mil doses) e Paraguai (70 mil doses) também puderam vacinar.
Alternativa que avança na região são os mosquitos com Wolbachia, parte do World Mosquito Program (WMP), que busca controlar a doença por meio da limitação de seu vetor — o Aedes aegypti. De acordo com informações do WMP, regiões de países como Colômbia, México, Honduras e El Salvador apostaram na adaptação dos mosquitos nos últimos anos. No próximo mês , haverá soltura dos mosquitos com Wolbachia em Lima, capital do Peru. A ideia é expandir para outras regiões peruanas.
O infectologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Julio Croda explica que, mesmo diante de novas tecnologias, é importante reforçar o serviço de saúde para identificar casos da doença e oferecer o manejo adequado.
— Em locais onde a dengue está em expansão geográfica nova, como a Argentina, podemos ter esse aumento de casos com letalidade. Com risco maior de morrer, justamente por conta da dificuldade dos especialistas reconhecerem sinais de alarme da doença — diz.