Horas antes de ataque dos EUA na Venezuela, mercados de previsão tiveram salto em apostas sobre queda de Maduro
Pouco antes das primeiras bombas americanas caírem sobre Caracas, e do presidente Nicolás Maduro, ser capturado e levado para os EUA, mercados de previsões — que apostam na probabilidade de eventos — registraram um salto nos palpites sobre a queda do líder venezuelano. Um único operador teve lucro de mais de US$ 400 mil, deixando no ar a suspeita de que pessoas com acesso aos planos de ataque podem ter se beneficiado.
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Um dos principais sites do mercado de previsões, o Polymarket, registrou alta considerável nas apostas de que Maduro estaria fora do poder antes de 31 de janeiro no final de sexta-feira, horas antes do anúncio da operação, feito por Donald Trump. Até ali, não havia qualquer indicativo que que um ataque estava a caminho: o primeiro sinal ocorreu por volta da meia-noite, pelo horário da Costa Leste americana, quando aeronaves na região da Venezuela foram ordenadas a não passar por ali.
Como apontou o portal Axios, uma conta recém-criada no Polymarket investiu US$ 30 mil na queda de Maduro, no final de sexta-feira. No dia seguinte, sacou US$ 436,7 mil. A empresa não se pronunciou sobre um possível uso de informações privilegiadas.
Desde as eleições nos EUA do ano passado, os mercados de previsão ganharam protagonismo nos meios político e econômico. Plataformas como o Polymarket e o Kalshi, que tem a bilionária brasileira Luana Lopes Lara entre seus fundadores, permitem que os usuários façam previsões sobre eventos mundiais, como a queda de Maduro ou uma nova guerra no Oriente Médio, e recebam incentivos financeiros para tal.
Apesar das empresas se apresentarem como uma plataforma para que especialistas e pessoas com conhecimento sobre determinado assunto deem suas opiniões, e até sejam recompensadas por tal, muitos consideram suas atividades como uma forma velada de atuação no mercado de apostas, as famosas bets. No Brasil, esse tipo de mercado não é regulamentado, mas tampouco proibido, afirmam especialistas.
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O ataque na Venezuela e o salto nas apostas contra Maduro levantou algumas questões importantes. No mercado financeiro e mesmo nas bets, há penalidades para pessoas que se aproveitem de seus cargos (um jogador de futebol que força um cartão, por exemplo) ou que usem informações privilegiadas para lucrar com investimentos. O mesmo não se pode dizer dos mercados de previsão: não há restrições explícitas a apostas feitas por membros do governo, inclusive em eventos sobre os quais eles têm influência ou conhecimento.
Para fechar essa lacuna, um deputado democrata promete apresentar um projeto de lei que veta a participação de uma gama de funcionários públicos — eleitos ou não — no mercado de previsões, O projeto não tem data para ser votado.
Imprensa como aliada
A captura de Maduro também jogou luz sobre outra prática antiga dos EUA, mas que não envolve apostas ou informações privilegiadas. De acordo com o portal investigativo Semafor, os jornais New York Times e Washington Post foram informados com antecedência sobre o início da operação na Venezuela, mas escolheram não publicar a notícia para proteger as tropas envolvidas no ataque.
Ouvidas pelo Semafor, fontes no governo disseram que os detalhes foram repassados aos veículos horas antes dos aviões decolarem, com o alerta para que não fossem publicados imediatamente para garantir a segurança dos militares que estavam em terra. A determinação foi obedecida sem questionamentos, diz o portal. Os envolvidos não quiseram se pronunciar.
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Apesar das rusgas com o governo Trump e das restrições impostas pelo Pentágono no segundo mandato do republicano, os veículos seguiram um antigo código de conduta relacionado a ações que possam colocar vidas de americanos em perigo. Em 1961, o New York Times segurou detalhes sobre a invasão fracassada da Baía dos Porcos, que tinha como alvo o regime de Fidel Castro em Cuba. Recentemente, vários veículos preferiram não publicar detalhes das negociações entre EUA e Rússia para a libertação do jornalista Evan Gershkovich e do ex-militar Paul Whelan, até que ambos fossem soltos.
A operação militar na Venezuela não deixou americanos mortos, mas 40 pessoas morreram no ataque em Caracas, de acordo com fontes do governo local, incluindo uma mulher de 80 anos, cuja casa foi atingida por um míssil na madrugada de sábado.