Economist alerta para risco de 'brasilização' da economia global
A revista britância The Economist traça um diagnóstico crítico da situação da economia brasileira e afirma que os países ricos deveriam estar atentos ao risco de "brasilização" da economia global. O quadro descrito pela publicação reforça a dificuldade de administrar a dívida pública com juros altos. No caso do Brasil, o patamar atual, de 15% ao ano da Taxa Selic, é o mais elevado desde julho de 2006.
A reportagem pondera que o país conta com indicadores positivos, como o crescimento econômico, considerado razoável. A expectativa para este ano é de alta de 1,8%, de acordo com a última pesquisa Focus, do Banco Central. Além disso, reforça que o país conta com Banco Central independente e o resultado primário (que exclui os pagamentos de juros) está quase equilibrado. A dívida líquida é considerada alta para um emergente, mas baixa comparada ao percentual registrado nos países ricos.
Afrouxamento de gastos
Mas garantir a rolagem da dívida tem exigido o pagamento de juros muito altos, cita a publicação. E isso fará com que o Brasil precise pegar emprestado o equivalente a cerca de 8% do PIB por ano para pagar os juros. A reportagem lembra ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afrouxou gastos e disputa a reeleição este ano. Após a leitura do quadro, a previsão da revista é que, a menos que os juros tenham queda significativa, a dívida pública brasileira vai disparar.
As condições particulares da economia brasileira são conhecidas, mas o que deveria estar no radar dos países ricos, de acordo com a publicação? A Economist lembra que o quadro fiscal nos Estados Unidos, no Reino Unido, na França e na Itália enfrenta forte pressão, mas a diferença é que o custo do endividamento é menor.
A revista aponta uma combinação de fatores como a responsável pela turbulência à vista na economia brasileira. Entre eles, a fragilidade das instituições, apesar de contarem com proteções formais e avanços, como a autonomia do Banco Central e a separação de Poderes; a sensibilidade da inflação mesmo 30 anos após o Plano Real; e a trajetória de longo prazo do Orçamento.
Necessidade de reformas
O caráter engessado do Orçamento e o alto percentual de gastos com apoentadorias - equivalente a 10% do PIB - são fatores de preocupação. Além disso, ressalta ainda a correção das aposentadorias a cada reajuste do salário mínimo.
O prognóstico para o Orçamento também indica tempos mais difíceis adiante: sem reformas, o país deve gastar mais com pensões do que países mais ricos e envelhecidos até 2050.
Eco em outras partes do planeta
As pressões sobre a economia brasileira ganham eco em outras partes do planeta. A revista lembra que o presidente americano Donald Trump politicou o Departamento de Justiça, já manifestou sua intenção de controlar o Federal Reserve, o banco central americano - basta lembrar a campanha reiterada de críticas ao presidente do Fed, Jerome Powell. Cita ainda que depois da pandemia, a inflação representa um risco maior nos EUA do que nas últimas décadas. Para deixar o quadro ainda mais próximo, os gastos com aposentadorias e saúde crescem à medida que as populações envelhecem.
Ao olhar com lupa os números da economia brasileira, a revista conclui que o país está diante de dois caminhos angustiantes à frente: austeridade profunda ou espiral de juros da dívida.