Ney Matogrosso fala sobre paquera no Instagram e libido aos 83 anos: 'Adoro sexo. É a liberdade maior'
Prestes a estrear cinebiografia nos cinemas, cantor também relembra episódio em que pai correu atrás dele com revólver “Eu vivo apenas com meus próprios meios. Eu vivo em penas com meus sentimentos.” Há exatos 50 anos, Ney Matogrosso cantava, a plenos pulmões, os versos de “Homem de Neanderthal” na faixa de abertura de seu primeiro álbum solo, “Água do céu — pássaro”. O cantor já havia conquistado o país à frente da banda Secos & Molhados, mas ainda restavam territórios a serem desbravados. “Queria mostrar todo o meu pensamento”, relembra, na sala da cobertura onde mora, no Leblon, Zona Sul do Rio. “Eu era esse híbrido, e não um americano do Norte. Sou um brasileiro mestiço com muitas coisas. E gosto de ser assim.”
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Mistura que levava também generosas doses de um despudoramento sensual. Duas faixas à frente, no mesmo disco, um sonoro orgasmo é simulado por mais de um minuto, ao fim de “Açúcar candy”. Antídoto contra o moralismo de um país que vivia às sombras da ditadura militar, de onde partiam intimidações para que ele se contivesse. “Quanto mais diziam ‘não se exceda’, mais eu me excedia”, recorda-se. A rebeldia, afinal, é uma característica que atravessa os seus 83 anos de vida. “Por acaso, era ditadura. Mas agiria assim de qualquer jeito. Queria me expressar.”
Àquela altura, Ney já havia enfrentado o pai, um militar que chegou a ameaçá-lo com revólver e de quem ele conseguiu se reaproximar ao longo da vida, e dançado seminu diante de plateias abarrotadas — e excitadas. A despeito dos impactos causados à época, são atitudes que seguem capazes de surpreender uma sociedade que ainda acena para o conservadorismo e até mesmo os fãs. É esta uma das expectativas do cantor em relação à cinebiografia “Homem com H”, dirigida por Esmir Filho, cuja estreia nos cinemas será no próximo dia 1º, com Jesuíta Barbosa no papel principal. “Muito ali já foi dito. Mas, quando visto, é outra coisa”, diz, sem dar spoilers.
Histórias que Ney revisita, na entrevista a seguir, ao falar sobre drogas, amores, lutos e música, numa trajetória em que jamais deixou de se reinventar. Com shows da turnê “Bloco na rua” agendados até 2026, o ímpeto criativo segue presente. “Estou começando a sentir uma necessidade de me mexer.”
O GLOBO - Como é ver a vida passar num filme?
NEY MATOGROSSO - Acompanhei três dias de filmagens, doze horas por dia. Não sei nem dizer o que sinto. Na primeira vez que vi (o filme), fiquei um pouco emocionado. Porém, é preciso olhar tudo com naturalidade, não enlouquecer. A única coisa que pedi ao Esmir é que não houvesse mentira. E estou satisfeito. Não sei por quê, mas todas as pessoas que assistem choram. Acha que algo vai surpreender o público?
Acha que o longa vai surpreender o público?
Sim. Muito já foi dito, mas visto é outra coisa. Não vou falar nada, porque não quero me comprometer.
O filme começa com a sua infância. Vem de lá o espírito libertário?
Sempre fui assim. Tudo o que meu pai não gostava, eu gostava. Com 6 ou 7 anos, pedi para estudar pintura, porque desenhava muito bem, e ele disse que não queria filho artista. Depois, lá pelos 12, fazia teatro escondido no colégio. Éramos três homens e duas mulheres (de filhos), e apenas eu o contrariava.
É verdade que seu pai correu atrás de você com um revólver?
Uma vez. Ele me botava de castigo e, com 17 anos, eu disse que não ia ficar. Ele foi atrás de mim com uma arma. Meu irmão foi por um atalho para me avisar. Não ia encarar um revólver de um homem que tinha ido à guerra. Aliás, uma pessoa que volta da guerra não volta normal. Sempre achei isso. Então, falei: “Não respeito você, tenho medo. Mas o medo vai passar um dia”. E passou.
E a sua mãe?
Ela era doce, embora não tivesse muito essa coisa de beijos e abraços. Isso nunca existiu dentro de casa. Ela me protegia, porque via que, se me largasse na mão dele, ele queria me destruir. Mas eu e ele ficamos amigos.
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Soa como uma história de amor e perdão.
Sim. Nos reaproximamos antes de eu ser artista. No auge da pobreza, em São Paulo, ele foi me visitar e disse: “Volta para casa, eu lhe arranjo um emprego, você está vivendo muito pobre”. Respondi: “Você não entendeu nada. Estou feliz, sou dono da minha vida”. Eu era hippie e beijava meus amigos. Num rompante, dei um beijo no rosto dele, na hora de nos despedirmos. Nunca mais paramos de nos beijar. Fui o único filho que ele beijou. Acho isso uma vitória.
O quão importante é essa história para você? já disse ter se libertado de ressentimentos.
Sim. O primeiro foi com ele. A partir daí, comecei a entender que isso não é para carregarmos. Por exemplo, não tenho ressentimento do João Ricardo (ex-companheiro dos Secos & Molhados). Era para ter, porque foi por causa dele que acabou a história toda (da banda), mas não tenho dele nem de ninguém. Esse sentimento escraviza, prende você num momento da vida.
O que ainda leva do estilo de vida hippie?
A liberdade. Não busco bens. Quando tive dinheiro para comprar esse apartamento, decidi morar aqui, porque gosto do Leblon. Tenho outro, que comprei para a minha mãe, um sítio e um carro velho.
O contato com as drogas se deu na fase hippie?
Não. Foi quando eu morei em Brasília, onde trabalhava num hospital. A droga lá era “liberada”, todo mundo fumava molhando o jardim. No primeiro momento, fiquei muito assustado com aquilo, porque entrei num estado mental que não conhecia. Mas foi libertador.
Era da boa, então...
Era de indígenas. Eles deixavam dentro de uma fruta e, depois, um cara levava numa mala. Você dava um sapato a ele, e recebia uma mão cheia.
Depois, vieram outras?
Usei todas as drogas que me interessaram, mas não uso mais. Nem cigarro, que é um vício filho da puta. E, com as outras, nunca tive regularidade. Gostava de ácido. Ia para Búzios tomar. Queria entender qual era o meu caminho nesse mundo.
Funcionou?
Entendi que precisava ir adiante, que era artista. Nunca tinha pensado em ser cantor, queria ser ator. Antes de começar a ensaiar (com o Secos & Molhados), tomei não sei quantos ácidos, em Búzios, sozinho. Ia para a praia, tomava banho, vestia uma roupa branca.
“Homem de Neanderthal”, que abre o primeiro álbum solo, parece definir você.
Queria mostrar todo o meu pensamento ali, que eu era um híbrido. Não era um americano do Norte. Sou um brasileiro mestiço com muitas outras coisas. E gosto de ser assim. Dia desses, fiz um levantamento do meu DNA. Descobri que tem Egito, parte do Oriente Médio e África, que é o início de tudo. Ninguém é de um canto só. Fiquei muito impressionado, porque achava que, no máximo, ia chegar a Portugal e Espanha.
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E aí, no mesmo disco, tem “Açúcar Candy “, com um orgasmo simulado na música.
No show, tinha um poste de metal, com um pássaro pousado em cima. Aquilo ficava no meio das minhas pernas, e encenava me masturbar enquanto cantava até gozar.
Por que o sexo é tão importante para você?
É a liberdade maior. “Bandido” (1976) foi o mais sexual de todos os meus trabalhos. Nos shows, trocava de roupa em cena, com um biombo na minha frente e um espelho atrás. Num determinado ângulo, me viam nu. Era o auge da minha sexualidade. Tinha trinta e poucos anos, estava cheio de hormônios jorrando por tudo quanto era canto.
As pessoas ficavam excitadas. Era excitante para você também?
Claro! Eu vivia voltado para isso. Adoro sexo até hoje! Não é mais daquela forma exacerbada. É com pessoas que seleciono. Antigamente, não escolhia. Quem se aproximasse de mim, encostasse o pé no meu pé, olhasse no meu olho, eu ia.
E você já teve um relacionamento poliamoroso com um homem e uma mulher. Como foi?
Sim, na época do Secos & Molhados. Viajava ora com um, ora com outro e, de vez em quando, levava os dois. Durou um ano mais ou menos. Mas ela começou a ter ciúme dele. O que era uma bobagem, né?
Está solteiro?
Graças a Deus. Não quero me casar com ninguém. Tive uma relação em que morei junto com o Marco (de Maria, médico), por 13 anos. Mas não sinto necessidade disso.
Já pensou em ter filhos?
Sim, mas logo deixei de pensar, felizmente. Quase casei, em Brasília, com uma menina que estava grávida de um cara, para limpar a barra dela. Mas ela ainda estava apaixonada pelo tal camarada. Ainda bem. Sou careta nesse sentido. Se tivesse um filho, não ia me jogar no mundo.
Sente-se solitário em algum momento?
Não. Como vou me sentir solitário com o trabalho exposto à multidão? Sempre fui uma criança solitária. Gostava de ser daquela maneira, como gosto de ser até hoje. Enquanto meus amiguinhos estavam brincando lá fora, eu estava desenhando.
Usa aplicativos de relacionamento?
Nunca tive. Agora, as pessoas usam muito o Instagram, que nem sabia que servia pra isso. Aparecem umas pessoas que ficam conversando comigo, mas moram longe. Então, digo: “Quando eu passar por aí, quem sabe a gente não realiza?”.
Já rolou algum encontro assim?
Não vou dar esse mole todo também (em responder), né?
Imaginava chegar aos 83 anos com esse vigor?
Não sabemos de nada. Aos 50 anos, comecei a fazer ginástica, porque era preconceituoso com isso. Achava coisa de americano. Hoje, não sei viver sem, mas não é para ficar fortão e sim para manter o tônus muscular.
Cuidou da mente também?
Fiz Fischer-Hoffman (método em que precisou reviver antigos conflitos com os pais para liberar a fúria), nos anos 1980. Era uma terapia completamente amaldiçoada, mas adorei. Sacudiu a lama do meu fundo. Depois, tomei Daime por um ano e meio, regularmente. Foi num momento em que o Marco e o Cazuza estavam muito doentes (ambos contraíram o vírus HIV). Era uma loucura na minha cabeça. Entendi que precisava estar disponível para essas pessoas até a última hora. Era o meu amor por elas, independentemente do sexo. Isso me fez crescer. Ampliou o meu panorama humano.
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Como passou pelo início do HIV?
Foi a maior dor que senti. Houve semana em que fui três vezes ao cemitério enterrar amigos. O Daime ajudou a me ancorar. O dedo era apontado o tempo todo para nós, mas eu cagava. Uma vez, fui com o Marco a uma médica, ele mal ficava em pé, e ninguém deixava a gente entrar no elevador. Comecei a gritar: “Vocês querem que ele morra aqui?”.
Ele foi o grande amor da sua vida?
Foi um deles, assim como o Cazuza. Tive uns seis amores.
O Marco morreu nos seus braços. Como foi?
Ele começava a morrer e não morria. Uma noite, a enfermeira disse: “Ele já teve uma parada respiratória e voltou. Alguma coisa o prende”. Então, fui lá e falei: “Marco, vai tranquilo, você já sofreu demais, descansa”. Ele suspirou, virou a cabeça para o lado e morreu, estava esperando isso.
E você contou que já sentiu a presença dele.
Duas vezes. Estava fazendo barba e senti uma coisa como se estivesse entrando em mim. Meu coração foi transbordando de amor. Da outra vez, estava trepando e o senti chegando, mas sem ciúme. Talvez tenha sido uma maneira de se aproximar daquela energia.
Como lida com a finitude?
Com a maior naturalidade. Também acho que deveria existir eutanásia no Brasil. Já pedi a um médico, muito amigo: “Se eu chegar a um ponto desses, me libera, pelo amor de Deus. Se quiser, deixo escrito”. É um direito de morrer dignamente, sem ficar em cima de uma cama de hospital. Não tenho medo da hora da passagem.
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Quanto à vida profissional, tem dificuldade em lidar com o mercado musical contemporâneo?
Não tenho porque estou fora e não vivo da minha música gravada. Se você soubesse o que ganho de direitos autorais... É ridículo, tenho vergonha de falar. Vivo de show. Não quero mais contrato com gravadora, não sinto necessidade. Passei por várias e não ficava satisfeito. Dizia: “Tchau! Não gosto de vocês”.
Está trabalhando em algo novo?
Não. Tenho shows da turnê “Bloco na rua” agendados até 2026. Para ficar interessante para mim também, estou trocando algumas músicas. Mas estou começando a sentir certa necessidade de me mexer.
Alguns nomes da sua geração fizeram turnês de despedida dos palcos. Já pensou sobre isso?
Não, nunca passou pela minha cabeça. Enquanto der, enquanto tiver força, vou ficar por aqui.