Turbulência nos mercados provoca venda em massa de títulos do Tesouro americano
Juros pagos pelos Treasuries sobem em ritmo só visto no auge da Covid. Analistas avaliam que China pode estar se desfazendo de parte de suas reservas em dólar como retaliação ao tarifaço Os mercados financeiros globais viveram nos últimos dias uma venda em massa de títulos de longo prazo do Tesouro americano, em patamares só visto no auge das turbulências com a pandemia do Covid, em 2020, e que reflete o temor generalizado de uma recessão provocada pela guerra comercial iniciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O movimento chama a atenção porque a dívida pública do governo americano é considerada há décadas como o investimento mais seguro do mundo, uma espécie de refúgio em tempos de crise. Nesta quarta-feira, os juros pagos pelos Treasuries (títulos do Tesouro americano) de 30 anos disparou e chegou a superar 5% ao ano.
Taxas altas significam que o governo dos EUA está precisando pagar muito ao investidor para que este aceite comprar seus títulos e são um termômetro do grau de desconfiança do mercado em relação à dívida americana.
— Não vejo movimentos ou volatilidade desse tamanho desde o caos da pandemia. É uma verdadeira venda maciça de Treasuries — disse Calvin Yeoh, gestor de portfólio do fundo de hedge Blue Edge Advisors.
Nos últimos três pregões, o rendimento dos títulos de 30 anos subiu cerca de 0,4 ponto percentual, marcando o maior aumento desde novembro de 2020. Nesta quarta-feira, a taxa de longo prazo subiu 0,2 ponto percentual, para 4,79%, após ter superado 5% em alguns momentos.
Analistas temem que o tarifaço de Trump global, que entrou em vigor nesta quarta-feira, possam levar a economia a uma recessão e limitar a capacidade de resposta do Federal Reserve (o banco central americano), ao mesmo tempo em que aumentam a inflação.
Alguns investidores especulam que os gestores de reservas globais, como a China, podem estar reavaliando suas posições na dívida pública dos EUA, considerando o impacto sísmico das políticas comerciais de Trump. Caso isso esteja acontecendo, seria um forte sinal de que os Treasuries já não oferecem a segurança de antes — embora essas movimentações raramente sejam anunciadas em tempo real. Tanto a China quanto o Japão vêm reduzindo suas participações nesses títulos há algum tempo, segundo dados oficiais.
— A China pode estar vendendo como retaliação às tarifas — disse Kenichiro Kitamura, gerente-geral do departamento de planejamento e pesquisa de investimentos da Meiji Yasuda, em Tóquio. — Os Treasuries estão se movendo por fatores políticos, e não pela dinâmica de oferta e demanda.
A China é de longe o país com maior reservas internacionais do mundo, com mais de US$ 3,2 trilhões. Como o dólar é a moeda de referência global, as reservas externas de todos os países do mundo costuma ter parcela enorme de títulos do Tesouro americana em sua composição.
Impacto direto em hipotecas e no crédito estudantil
Os juros pagos pelos Treasuries têm influência direta no dia a dia do consumidor americano, influenciando desde as taxas pagas por hipotecas e empréstimos estudantis até o financiamento de carros. E os canais de transmissão costumam ser quase imediatos: uma alta nos juros dos Treasuries têm reflexo em cascata nos juros da economia. Uma alta nessas taxas coloca em xeque a promessa do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de reduzir os custos de financiamento para consumidores e empresas.
Os títulos dos EUA sempre foram um pilar na construção de portfólios, com investidores confiando na estabilidade e riqueza do país para ancorar seus ativos. Os juros pagos por outros títulos de governos de países ricos também subiram com força nesta quarta-feira, com altas expressivas para os papéis de Reino Unido, Austrália e Japão.
Mas, entre todos os movimentos do mercado, o salto incomum nos rendimentos dos Treasuries foi o que mais chamou atenção dos traders. Normalmente, esses rendimentos caem em períodos de tensão financeira, tornando essa reação atípica.
Na terça-feira, um leilão semanal de títulos de três anos do governo americano teve demanda supreendentemente fraca. Investidores estarão atentos a uma nova oferta prevista para esta quarta-feira, de US$ 39 bilhões em papéis de 10 anos. E, na quinta-feira, haverá um leilão de títulos de 30 anos.
'Entramos numa espiral negativa que não vai terminar bem'
Alguns operadores destacaram um medo mais profundo e o risco de problemas ocultos. Dado o ritmo da liquidação em massa, há suspeitas de que investidores estrangeiros estejam vendendo títulos dos EUA e se desfazendo de ativos para levantar dinheiro rapidamente.
Outra teoria sugere que fundos de hedge podem estar sendo forçados a liquidar posições rapidamente, como aconteceu no colapso do chamado deste mercado em 2020, alimentando ainda mais as turbulências. Essas liquidações podem estar relacionadas a um mecanismo conhecido no mercado como stop loss, quando os fundos têm gatilhos para vendas automáticas de ativos após esses chegarem a patamares que representem prejuízo excessivo.
— Estamos entrando em uma espiral negativa que não vai terminar bem, pois a excepcionalidade dos EUA continua sendo desvalorizada — disse Sophie Huynh, estrategista sênior de ativos cruzados do BNP Paribas Asset Management.
A "excepcionalidade" é um conceito usado por analistas financeiros para classificar o mercado americano como único no mundo, o que faria os títulos do Tesouro dos EUA um refúgio de segurança em qualquer cenário de turbulência. O termo se aplica também à robustez das Bolsas de Valores dos EUA, que obriga investidores globais a ter parcela relevante de ações americanas em seus portfólios.
George Saravelos, chefe global de estratégia de câmbio do Deutsche Bank AG, alertou que
— Estamos entrando em território desconhecido no sistema financeiro global — avalia George Saravelos, chefe global de estratégia de câmbio do Deutsche Bank. — Se a recente turbulência no mercado de Treasuries continuar, não restará outra opção ao Fed a não ser intervir com compras emergenciais para estabilizar o mercado de títulos.
Nem todos acreditam que os Treasuries perderam seu apelo como porto seguro. Leah Traub, gestora da Lord Abbett, que administra US$ 217 bilhões em ativos, lembra que esses títulos ainda demonstraram correlação negativa com ações em março, quando o mercado reagiu a temores de uma desaceleração do crescimento nos EUA.
— No caso de uma recessão nos EUA ou global, ainda acreditamos que os investidores voltarão aos Treasuries — disse ela.