Após o ataque, as incertezas: EUA ainda trabalham em plano para Venezuela pós-Maduro, diz jornal
Ao anunciar em tons festivos que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, havia sido capturado em uma operação militar de grande porte, e que os EUA “comandariam” o país no processo de transição, Donald Trump, presidente americano, não deu detalhes sobre os planos para o país no curto prazo. Talvez por um motivo simples: eles não estão prontos.
Mudança de líderes, mas não de regime: Chavistas mantêm o poder, e oposição radical é escanteada
Contexto: Mesmo com captura de Maduro, futuro da Venezuela ainda é incerto
De acordo com o Wall Street Journal (WSJ), os secretários de Estado, Marco Rubio, e da Guerra/Defesa, Pete Hegseth, ainda estão desenvolvendo uma estrutura de governo para o pós-Maduro, ao lado do conselheiro de Trump, Stephen Miller, mas a proposta ainda não tem uma cara definida. Na entrevista coletiva de sábado, Trump não descartou a presença de tropas americanas — uma expressão que provoca arrepios em Washington — ou de novos ataques, caso entenda que seja necessário.
De certo, o trumpista deixou claro que não quer trabalhar com os principais nomes da oposição ao chavismo, notadamente a Nobel da Paz, María Corina Machado, que vê com bons olhos a vice-presidente Delcy Rodríguez (a quem a Suprema Corte ordenou que assuma o poder), e que quer explorar o petróleo venezuelano. Em sua primeira fala após a operação, Delcy e o alto escalão do governo prestaram lealdade a Maduro, o chamando de "único presidente", e exigiram sua libertação.
Entrevista: Ataque dos EUA à Venezuela foi 'nítida intromissão na soberania de outro Estado', afirma especialista
O resto, basicamente tudo, é uma incógnita. O Pentágono, comandado por Hegseth, não sabe por quanto tempo permanecerá na região, ou quantos militares serão necessários em uma futura ocupação. Desde meados de agosto, os EUA intensificaram sua presença armada no Caribe, inicialmente sob pretexto de combater o narcotráfico, mas que depois se confirmou como parte de uma operação voltada a remover Maduro do poder.
Também não está claro quem pagará a conta. No final de dezembro, a revista National Inquirer estimou que, até aquele momento, a operação Lança do Sul havia custado US$ 600 milhões aos cofres americanos, sem levar em consideração os valores envolvidos no ataque contra Maduro: de acordo com o Pentágono, foram usados dezenas de aviões, embarcações navais e tropas de elite dentro do núcleo do poder chavista. Segundo o WSJ, não há planos imediatos de pedidos de verbas adicionais ao Congresso.
Trump 2.0: Entenda o papel do passado e o do futuro de Cuba no ataque dos EUA à Venezuela
No sábado, Trump sugeriu que pode usar o dinheiro obtido com a venda do petróleo venezuelano para ajudar a custear o plano. O país tem as maiores reservas confirmadas do planeta, mas há desafios consideráveis para elevar a produção interna. Há décadas alvo de sanções e falta de investimentos, o setor tem problemas estruturais sérios, que podem levar anos até serem resolvidos (a um custo bilionário). Outro risco é a instabilidade interna: não há qualquer garantia de que o chavismo aceitará de bom grado a tutela americana — o sentimento anti-Washington é parte essencial do discurso governista, desde os tempos de Hugo Chávez, e nem todos são adeptos do pragmatismo.
— O pior cenário seria que partes das Forças Armadas aderissem ao plano dos EUA, enquanto outras resistissem, e a situação evoluísse para uma espécie de conflito armado interno — disse Phil Gunson, analista do centro de estudos International Crisis Group, ao WSJ.
Em Washington, embora Trump e aliados celebrem a prisão de um algoz regional, nem todos parecem dispostos a embarcar nos planos ainda incompletos da Casa Branca.
“Eu vivi as consequências de uma guerra ilegal vendida ao povo americano com mentiras”, escreveu o senador democrata Ruben Gallego , ex-fuzileiro naval que serviu no Iraque (invadido pelos EUA em 2003), em suas redes sociais “Juramos que jamais repetiríamos esses erros. E aqui estamos nós novamente. O povo americano não pediu por isso, o Congresso não autorizou isso, e nossos militares não deveriam ser enviados para o perigo em mais um conflito desnecessário.”