Publicações oficiais do governo Trump nas redes sociais ecoam mensagens supremacistas brancas; veja
As postagens fazem referência à literatura neonazista, à limpeza étnica e às teorias da conspiração do QAnon, cogitaram a deportação de quase um terço da população dos Estados Unidos e promoveram trechos de um hino entoado pelos militantes de extrema-direita do grupo Proud Boys. Seus autores não estão à margem da sociedade. Eles trabalham nos escritórios da Casa Branca e nos departamentos de Segurança Interna e do Trabalho, utilizando contas oficiais do governo.
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Para algumas pessoas, as postagens do governo soam patrióticas. Outras podem perceber, no máximo, um leve aceno velado para extremistas. Algumas postagens podem simplesmente parecer estranhas. Mas aqueles versados nos códigos obscuros do extremismo de direita ouvem alarmes soando.
Este mês, a Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna publicaram um anúncio de recrutamento para o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) no Instagram, Facebook e X, com a frase "TEREMOS NOSSA CASA NOVAMENTE". Esse também é o nome de uma música, escrita por membros de uma autodenominada “ordem fraternal pró-branca”, que foi adotada pelos Proud Boys e outros grupos nacionalistas brancos. Desde 2020, centenas de contas explicitamente neonazistas e supremacistas brancas compartilham a música no Telegram.
Publicação do Departamento de Segurança Interna usa título de uma canção escrita por nacionalistas brancos
Reprodução / Redes sociais
— Existem dois tipos de pessoas para quem essas mensagens parecerão rapidamente familiares: supremacistas brancos e aqueles que estudam supremacistas brancos — disse Oren Segal, vice-presidente de combate ao extremismo da Liga Antidifamação.
A porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, disse que se a publicação de recrutamento do ICE fosse realmente sobre a música, isso "seria um problema" e "moralmente repugnante". Mas, segundo ela, a publicação não tinha nenhuma relação com o hino supremacista branco.
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— Há muitas referências a essas palavras em livros e poemas — disse ela, acrescentando que era “responsável por tudo” o que era publicado nas redes sociais do departamento.
Mas quando a publicação foi aberta no Instagram, o áudio do refrão da música tocou ao fundo. Depois que um repórter apontou isso, McLaughlin disse que o New York Times (NYT) estava participando de uma teoria da conspiração de esquerda.
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— Estou lhe dizendo que não está lá — afirmou a porta-voz, dizendo que NYT que "normalizou o racismo" ao associar o cargo da agência ao hino nacionalista branco.
Menos de 40 minutos após a entrevista, a publicação no Instagram — que incluía o áudio da música — desapareceu das redes sociais. Publicações no X e no Facebook, que não continham áudio, continuaram no ar.
'Qual o caminho'
No último mês, agências governamentais fizeram dezenas de novas postagens em redes sociais que incluem iconografia associada a grupos extremistas de extrema-direita.
Enquanto o presidente americano, Donald Trump, intensificava sua campanha para assumir o controle da Groenlândia neste mês, a conta oficial da Casa Branca no X publicou uma imagem de uma encruzilhada, com Washington banhada de sol à esquerda e a Rússia e a China à direita, representadas em um cenário das trevas. A legenda dizia: “Qual o caminho, homem groenlandês?” No ano passado, uma publicação de recrutamento do ICE na conta oficial do Departamento de Segurança Interna perguntava: “Qual o caminho, homem americano?”
Durante a campanha de Trump para adquirir a Groenlândia, a Casa Branca publicou uma montagem perguntando para os groenlandeses: Qual o caminho?
Reprodução / Redes sociais
Segundo Robert Futrell, sociólogo da Universidade de Nevada, os slogans ecoam o título de um livro de 1978 — “Qual o Caminho, Homem Ocidental? ” —, que grupos supremacistas brancos consideram “fundamental”. O livro afirma que os judeus estão conspirando para destruir a civilização ocidental, que Adolf Hitler estava certo e que a violência contra os judeus é justificada.
Este mês, o Departamento do Trabalho publicou uma imagem em estilo noir com os dizeres "CONFIE NO PLANO". Essa também é uma frase central do QAnon, uma teoria da conspiração da internet que alega falsamente que o mundo é governado por uma cabala de pedófilos adoradores de Satanás e que Trump foi escolhido para destruí-la.
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Na véspera de Ano Novo, a conta oficial da Casa Branca publicou uma foto de Trump acompanhada da palavra "remigração". Para Wendy Via, fundadora do Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, trata-se de um conceito europeu antigo, que se concentra na expulsão de pessoas não brancas e imigrantes considerados "não assimilados".
Dezenas de milhares de alemães protestaram contra o conceito há dois anos, depois que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) se reuniu secretamente com neonazistas para discutir planos para implementá-lo. Na ocasião, mais de uma dúzia de políticos da AfD republicaram a imagem de Trump sobre a "remigração" no X.
'Slogan nazista'
Ainda neste mês, o Departamento do Trabalho publicou um vídeo com a legenda “Uma Pátria. Um Povo. Uma Herança.” Essa frase lembrava um slogan alemão usado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: “Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer”, ou “Um Povo, Um Império, Um Líder”.
O Departamento do Trabalho não respondeu a vários pedidos de comentários, mas Abigail Jackson, porta-voz da Casa Branca, descartou qualquer ligação entre os cargos governamentais e o extremismo.
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— Parece que a grande mídia se tornou um meme por si só: o esquerdista desvairado que afirma que tudo de que não gosta deve ser propaganda nazista. Se controlem — disse Jackson.
Especialistas no movimento da extrema-direita nas redes sociais afirmaram que uma ou duas postagens isoladas podem ser coincidência. Mas, “quando se analisa tudo em conjunto”, disse William Braniff, diretor do Laboratório de Pesquisa e Inovação sobre Polarização e Extremismo da American University, “fica muito mais difícil ignorar”. Outros especialistas estavam igualmente certos de que as aparentes alusões não eram acidentais.
Publicação do Departamento do Trabalho usa frase que, segundo especialistas, ecoa um slogan nazista
Reprodução / Redes sociais
— Essas pessoas costumavam estar nos cantos obscuros da internet — afirmou Jessie Daniels, socióloga do Hunter College que estuda extremismo online há 30 anos. — Agora, elas ocupam cargos públicos.
Relação com o governo Trump
Durante anos, Trump e sua campanha lidaram com acusações de que membros de seu círculo íntimo estariam apelando secretamente para racistas e antissemitas. Eles as rejeitaram. Uma postagem do então candidato no X, em 2016, mostrando Hillary Clinton ao lado de uma estrela de Davi, diante de pilhas de dinheiro, havia aparecido em um fórum conhecido pelo antissemitismo e supremacia branca.
Naquele ano, o último comercial de campanha de Trump apresentava imagens granuladas de George Soros, o financista liberal americano; Janet L. Yellen, então presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano; e Lloyd C. Blankfein, então presidente do Goldman Sachs — todos eles judeus — enquanto Trump alertava de forma sombria sobre os “interesses especiais globais”.
Publicação da Casa Branca mostra Trump ao lado de um termo usado pela extrema-direita na Europa para pedir a expulsão de estrangeiros
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— É uma relação direta entre essas ideias e o governo Trump moderno — disse Richard Hanania, um cientista político que já escreveu para publicações nacionalistas brancas sob pseudônimo antes de moderar suas opiniões.
Para ele, o governo Trump está "mobilizando essas pessoas e fazendo com que elas inundem o X e criem esse ambiente de vitória".