Cão Orelha: jovens, juíza e donos de hotel sem elo com morte do cachorro relatam ameaças e ataques na web
Ao menos cinco famílias tiveram a rotina impactada por ataques nas redes sociais desde que veio à tona o caso do cão Orelha, encontrado morto a pauladas no dia 15 de janeiro, em Florianópolis (SC) — mesmo que não tivessem qualquer relação com o caso. Confundidos com suspeitos ou agentes envolvidos na elucidação da história, uma juíza, duas redes de hotel e dois casais com filhos jovens passaram a receber xingamentos e até ameaças de morte por parte de defensores do animal.
A Polícia Civil apura o envolvimento de ao menos quatro adolescentes na agressão que levou à morte do animal, considerado mascote da Praia Brava. O cachorro foi encontrado gravemente ferido em uma área de mata e chegou a receber atendimento veterinário, mas não resistiu. As investigações seguem sob sigilo. Por se tratar de um caso envolvendo menores de idade, nomes que permitam a identificação dos suspeitos não serão divulgados.
Na última semana, circularam pelas redes sociais postagens que apontavam os proprietários do Majestic Palace Hotel como pais de um dos adolescentes suspeitos. Os donos do estabelecimento divulgaram uma nota em que sustentam haver apenas uma coincidência de sobrenomes, sem qualquer vínculo de árvore genealógica.
— Repudiamos com veemência qualquer forma de violência contra animais. No entanto, é injusto e inaceitável que um hotel com trajetória ética, transparente e reconhecida seja atacado com base em desinformação e associações falsas. Nossa família não possui qualquer vínculo com os investigados, e nossa atuação sempre foi pautada pelo respeito, inclusive à causa animal — afirma o diretor do Majestic Palace Hotel.
A equipe destaca que o hotel virou alvo de "linchamento virtual" com base em informações incorretas, o que pode ensejar responsabilização civil e criminal. As medidas cabíveis já estão sendo tomadas, afirma a assessoria do Majestic Palace.
Outro estabelecimento de hospedagem com nome semelhante, o Majestic Rio Hotel também foi alvo de ataques nas redes sociais. O estabelecimento publicou nota no Instagram para negar qualquer envolvimento com o "trágico ocorrido" com Orelha.
"Somos um hotel que ama, respeita e valoriza os animais. Assim como tantas pessoas, ficamos profundamente consternados e solidários diante do ocorrido, e repudiamos qualquer forma de violência. No entanto, estamos sendo alvo de ataques, denúncias e tentativas de derrubada desta página por um erro de identificação, o que afeta injustamente nossos colaboradores, hóspedes e parceiros, que nada têm a ver com o caso", ressalta a postagem.
A juíza Ana Cristina Borba Alves, da Vara da Infância e Juventude de São José, disse ter recebido mais de dois mil comentários com ofensas e xingamentos na última semana. O nome da magistrada circulou na internet por uma suposta ligação com o procedimento contra os adolescentes, mas ela não atua no caso nem na capital catarinense. Ana Cristina acionou o Núcleo de Inteligência e Segurança Institucional do Tribunal de Justiça do estado para a abertura de um inquérito para apurar o cometimento de crimes contra a honra e ameaça.
— Ainda que eu fosse a juíza do caso, há o devido processo legal e eu não concordo de forma alguma com esse linchamento. Isso não leva a lugar algum. As pessoas estão combatendo violência com mais violência. Eu me senti altamente violentada. Foi assustador, desgastante — ressaltou a juíza, em entrevista ao ND+.
Além da juíza e dos donos de hotéis, dois casais viram seus filhos jovens serem vinculados injustamente à agressão contra Orelha.
Um casal de Santa Catarina alega ter sofrido ameaças nas redes sociais após ser confundido com os pais de um dos adolescentes que foram apontados como agressores de Orelha. Os dois registraram boletim de ocorrência, na Polícia Civil, contra mais de 100 perfis.
Segundo a família, em publicações nas redes sociais, o nome de um dos suspeitos aparece vinculado ao da mãe de outro adolescente. A foto de um dos filhos do casal, que é menor de idade, chegou a ser usada em publicações com ataques, relatam. Mensagens com ofensas e ameaças também foram enviadas diretamente aos dois.
"Seu filho vai pagar. Verme imundo. Tomar um monte de tiro na cara", escreveu um. "Que o povo faça justiça com as próprias mãos e aconteça o mesmo ou pior com vocês", enviou outra pessoa.
Segundo a família, a mãe do adolescente confundido é sócia da mãe do investigado, o que teria motivado a associação errado. A família diz ter identificado professores, empresários, funcionários públicos e influenciadores entre os perfis que fizeram ameaças. Segundo os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte, que representam o casal, alguns perfis continham o nome completo da pessoas e até mesmo o local de trabalho.
"A falsa sensação de impunidade na internet faz com que muitos acreditem que podem difamar, perseguir e atacar inocentes sem enfrentar consequências, o que não corresponde à realidade (...) A defesa reforça que cada autor das ofensas pode ser individualmente responsabilizado, especialmente porque a identificação dos perfis é simples e tecnicamente viável", dizem os advogados em nota.
Em caso semelhante, um adolescente de São Roque (SP) passou a sofrer ameaças por ter o nome parecido com o de um dos jovens suspeitos. Apenas uma letra diferencia como se chamam o investigado e o morador do interior paulista, cuja família passou a receber mensagens de ódio, insultos e ameaças e decidiu registrar ocorrência por calúnia e difamação.
A família relatou à imprensa local que, por causa dos ataques, o rapaz deixou de realizar atividades cotidianas e permaneceu recluso, com impactos diretos em sua saúde mental.
Entenda o caso
O caso é investigado pela Polícia Civil de Santa Catarina, que já identificou ao menos quatro adolescentes suspeitos de envolvimento na agressão. Segundo a corporação, as apurações avançaram a partir da análise de imagens de câmeras de segurança e de depoimentos de moradores. O cão foi encontrado gravemente ferido em uma área de mata no início do ano, chegou a ser levado a atendimento veterinário, mas não resistiu e passou por eutanásia.
Dois dos suspeitos estão em Florianópolis e foram alvos de mandados de busca e apreensão nesta segunda-feira (26). Os outros dois estão nos Estados Unidos, em viagem previamente programada, segundo a corporação.
Orelha era considerado um mascote da Praia Brava, onde morava havia cerca de dez anos e era alimentado diariamente por moradores. No sábado passado (17), um primeiro protesto já havia reunido pessoas no bairro para pedir justiça.
Além das manifestações de rua, o caso também chegou ao Legislativo estadual. O deputado estadual Mário Motta (PSD) defendeu publicamente a criação de uma estátua em homenagem ao animal. Para ele, a iniciativa seria uma forma de preservar a memória de Orelha e transformar a indignação coletiva em um símbolo permanente de combate à violência contra animais.
“Não há mais espaço para esse tipo de crime em nossa sociedade. Queremos justiça para o Orelha e para todos os animais vítimas da violência humana”, escreveu o parlamentar, que também divulgou um abaixo-assinado para viabilizar o projeto.
A Delegacia de Proteção Animal segue responsável pelo caso. A delegada Mardjoli Valcareggi afirmou que os suspeitos já foram localizados e que a investigação está na fase de oitivas. Ela também destacou a importância da colaboração da população, lembrando que crimes contra animais costumam ser difíceis de apurar.