Quarto dia de buscas no Pico Paraná: o que se sabe sobre o desaparecimento de jovem após se separar da amiga na trilha
As buscas por Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, desaparecerido no Pico Paraná, continuam neste domingo (4), quarto dia de operações no ponto mais alto do Sul do Brasil. Desde o amanhecer, equipes do Corpo de Bombeiros do Paraná, com apoio de montanhistas voluntários especializados, atuam na região com uso de helicóptero, drones, rapel e sobrevoos com câmera térmica. A Polícia Civil acompanha o caso e apura as circunstâncias do desaparecimento, registrado oficialmente pela família no sábado (3).
Morre um dos intoxicados por metanol no interior da Bahia, e prefeitura lamenta: 'abalou nossa comunidade'
De Guarujá à Baixada Santista: São Paulo teve sete mortes por afogamento no litoral na virada de ano
Roberto não é visto desde a manhã de quinta-feira (1º), quando descia a trilha após passar o réveillon no Pico Paraná com uma amiga. Segundo o Corpo de Bombeiros, ele iniciou a subida na noite de quarta-feira (31), passou mal durante o trajeto, mas conseguiu chegar ao cume por volta das 4h do dia seguinte. Após um período de descanso, iniciou a descida e acabou se separando do grupo.
No dia 1º, por volta das 13h45, uma equipe do Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST) foi mobilizada para iniciar as buscas oficiais. Outras duas equipes se juntaram ao trabalho, que avançou até a madrugada de sexta-feira. No sábado, uma das equipes subiu a trilha a pé até o cume, enquanto outra acessou o topo com helicóptero e iniciou a descida. Também participaram montanhistas do Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo) e corredores do Clube Paranaense de Montanhismo (CPM).
Roberto Farias passou o réveillon no Pico Paraná com uma amiga
Reprodução
Investigação e restrições no parque
A Polícia Civil do Paraná abriu investigação no sábado, após o registro de boletim de ocorrência pela família. O delegado Glaison Lima Rodrigues, de Campina Grande do Sul, informou em entrevista à RPC, afiliada da TV Globo, que o caso é tratado inicialmente como desaparecimento e que, até o momento, não há indícios de crime.
“Não há elementos iniciais de uma infração penal, mas caso fique caracterizado o mínimo indício dessa ocorrência de infração penal, haverá uma conversão desse boletim de ocorrência e análise em um inquérito policial ou um termo circunstanciado para que seja encaminhado ao Poder Judiciário”, afirmou o delegado.
Atendendo a uma recomendação do Corpo de Bombeiros, o Instituto Água e Terra (IAT) restringiu temporariamente o acesso ao Parque Estadual Pico Paraná. Desde sábado (3), os morros Caratuva, Pico Paraná, Getúlio e Itapiroca estão fechados para visitantes, a fim de não interferir nas operações de resgate. O acesso aos morros Camapuã e Tucum permanece liberado.
Relatos de testemunhas na trilha
O analista jurídico Fabio Sieg Martins, montanhista experiente, estava em um dos grupos que encontrou Roberto e a amiga durante a trilha. Ele relatou que acionou os bombeiros ao perceber que o jovem não havia chegado ao acampamento base.
“Quando a gente chegou no acampamento A1, venceu os grampos e tudo mais, estava a menina na barraca. Aí eu pergunto pra ela: ‘Cadê o Roberto?’. Ela não sabia. Aí bateu o desespero. Eu falei: ‘o guri deve ter se desorientado lá no A2, está perdido lá em cima’. No primeiro ponto que dava sinal de celular, liguei para o Corpo de Bombeiros e situei a posição e as referências que nós tínhamos ali”, contou Martins.
Segundo ele, durante a subida, Roberto apresentava sinais de debilidade. “Quando chegamos perto da esfinge, vi que o Roberto tinha ficado um pouco para trás. Perguntei se ele estava bem, mas ele estava vomitando. Orientamos ele a ir com calma, demos chocolate e água. Ele melhorou, comemoramos e seguimos”, relatou, em entrevista à Ric RECORD.
Martins afirmou ainda que alertou a jovem para não deixar o rapaz sozinho. “Eu falei: você não pode abandonar ele, ele estava doente, aqui é um ambiente hostil. Aí ela foi. Quando chegamos no acampamento 1, encontramos a menina na barraca, e ela não sabia onde ele estava. Tivemos que voltar pela trilha, mas não conseguimos localizar o Roberto”, disse.
Versões e depoimentos
A amiga que acompanhava Roberto, identificada como Thayana, gravou vídeos nas redes sociais relatando o ocorrido. Segundo ela, chegou ao acampamento 1 por volta das 7h50, dormiu e, cerca de uma hora depois, foi alertada por outros trilheiros de que Roberto poderia estar perdido.
Thayana e Roberto subiram juntos o Pico Paraná, mas testemunhas relataram desentendimento entre os dois
Reprodução/ Ric RECORD
“Eles perguntaram sobre o Roberto, eu disse que ele estava vindo atrás. Daí eles falaram que ele deveria estar perdido. Nos preparamos em 15 minutos e fomos atrás dele. Passamos sede, fome, tivemos que nos ajoelhar para tomar água de lama porque gritamos muito. Chegou um momento que estávamos muito cansados, e os bombeiros mandaram a gente voltar para não sermos outras vítimas”, relatou.
Testemunhas ouvidas pela Ric RECORD afirmaram que houve um desentendimento entre os dois durante a trilha, após uma brincadeira do jovem que não teria agradado a amiga. Em entrevista à emissora, Thayana confirmou que chegou antes ao acampamento, mas disse que Roberto vinha logo atrás. “Eu fico com pensamento ruim por ter deixado ele para trás. Se eu não tivesse me separado, talvez não teria acontecido isso, porque quem tinha mais experiência era eu”, declarou.
Apelo da família
A irmã do jovem, Renata Farias Thomaz, acompanha as buscas na base da montanha e tem feito apelos públicos por mais recursos. Nas redes sociais, ela pediu apoio do governador Ratinho Junior para ampliar o uso de drones e helicópteros.
Irmã de Roberto quer investigação sobre versão apresentada por pessoas que encontraram Roberto na trilha
Captura de tela/ Ric RECORD
“A esperança nunca acaba. É angustiante, mas as chamadas que temos pedido para a pessoa ajudar estão funcionando. Eu tenho muita fé que hoje vou voltar com ele para casa”, afirmou Renata, em entrevista ao Balanço Geral Curitiba, da Ric RECORD.
Ela também defende que a investigação esclareça pontos ainda nebulosos. “Todo mundo que desceu com ela falou uma coisa, daí o Fábio falou, daí ela falou, e vai ficando uma lacuna que não está fechando. A Polícia Civil é para isso, para perguntar de forma técnica. A gente já entendeu que ele passou mal, mas tem uma parte que faltou informação”, disse.
A família pede que montanhistas experientes, especialmente aqueles que conhecem o Vale do Cacatu e a trilha do Saci, se cadastrem na base do Corpo de Bombeiros para atuar como voluntários nas buscas, que seguem sem previsão de encerramento.