Congresso do Peru se prepara para apontar novo presidente interino antes de eleições gerais de julho
O Congresso do Peru se prepara para eleger um novo presidente interino nesta quarta-feira, um dia após o impeachment do presidente José Jerí, retirado do cargo apenas 130 dias após ser escolhido para substituir a também deposta Dina Boluarte — tornando-se o sétimo presidente a não completar um mandato desde 2016, sendo o segundo a ocupar a cadeira da Presidência pelo menor período neste século. A derrubada de Jerí aprofunda uma ampla crise que transformou o país sul-americano em um dos mais politicamente instáveis do mundo, e acontece na reta final das eleições presidenciais previstas para daqui a dois meses — no que pode ser um ponto de virada para restabelecer o equilíbrio entre os poderes.
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A destituição de Jerí — um político de 39 anos que tentou emular a linguagem nas redes sociais e as estratégias midiáticas de combate à criminalidade de outros líderes da região, como Nayib Bukele — pelo placar de 75 votos a 24 no Congresso foi apontada por analistas como um lembrete da força que o Poder Legislativo peruano adquiriu na última década, e de como o fator eleitoral tem ocupado um espaço central na sobrevida dos líderes políticos do país.
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— Há vários anos vivemos sob um sistema de parlamentarismo. O conceito de impeachment tornou-se difuso, evoluindo para uma espécie de voto de confiança parlamentar — disse a cientista política Paula Távara, em entrevista ao jornal espanhol El País, explicando que o processo se acentuou a partir de 2016, quando Pedro Pablo Kuczynski foi eleito presidente, mas herdou um Congresso oposicionista, com maioria do partido Ação Popular, da líder de direita Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, derrotada na corrida presidencial.
A analista aponta que foi a partir do período que o Congresso unicameral do Peru decidiu exceder os limites da oposição no Legislativo, ampliando os embates e as tentativas de imposição sobre a agenda do Executivo. Essa expansão se tornou a regra geral da dinâmica política peruana, começando pela deposição de Kuczynski — em meio a denúncias de relações ilegais com a empresa brasileira Odebrecht —, em uma espiral que tem como capítulo mais recente a queda de Jerí.
O sucessor do presidente eleito foi Martín Vizcarra, que ocupava a vice-presidência. Ainda sob pressão do fujimorismo, ele sofreu um impeachment em 2020, acusado de "incapacidade moral permanente". Recentemente, Vizcarra foi condenado pela justiça peruana a 14 anos por corrupção, em um processo que investigou fatos da época em que era governador. Após Vizcarra, Manoel Merino foi escolhido em um processo indireto, mas permaneceu apenas cinco dias no cargo, renunciando após protestos violentos. Seu sucessor, Francisco Sagasti, foi o único a chegar ao fim do mandato, passando oito meses no cargo.
Foto divulgada pelo Congresso peruano mostra sessão extraordinária que deliberou impeachment de José Jeri
Congresso do Peru/ AFP
Assim como os antecessores, o presidente eleito em 2020, Pedro Castillo, e Dina Boluarte, sua vice até a deposição, foram retirados do cargo sob alegações envolvendo a incapacidade moral. Castillo tentou fechar o Congresso, em uma manobra constitucional arriscada, enquanto Boluarte sofria pressões de protestos contra a insegurança. Castillo foi condenado a 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado no fim do ano passado, mas foi absolvido de acusações envolvendo abuso de poder e perturbação da ordem pública.
Impacto eleitoral e possível estabilização
O histórico de deposições mostra que em muitos casos, suspeitas de corrupção ou argumentos vagos envolvendo a idoneidade moral levaram a queda dos presidentes — no caso de Jerí, o processo político foi embasado em denúncia de "má conduta funcional e falta de aptidão", após o Ministério Público abrir investigações por suas relações com um empresário chinês e a contratação de nove mulheres para o governo. Ele não foi julgado por nenhum dos casos e as investigações ainda estão em fase inicial. A falta de contraditório não impediu a queda.
"Este episódio não é um caso isolado; pelo contrário, reflete uma tendência estrutural impulsionada pelos poderes significativos conferidos ao legislativo, pela falta de profissionalização entre muitos políticos e pelos níveis relativamente baixos de engajamento social em relação à responsabilização política", escreveu o analista Eduardo Ruiz, da consultoria global Control Risks, em uma análise para o Americas Quartely.
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Apesar da instabilidade política, o país sul-americano vem registrando crescimento econômico nos últimos anos. A leitura de analistas é de que a estabilidade no Banco Central do país transmite segurança a investidores, incluindo de EUA e China. Para o campo político, a expectativa é de que as mudanças previamente programadas a partir do pleito de julho ajudem a estabilizar o cenário. Neste ano, o país elegerá, além de deputados, senadores, retomando a estrutura bicameral que havia sido extinta pelo ditador Fujimori.
"[O] novo Congresso bicameral deve restringir o processo de impeachment no próximo mandato, já que será mais difícil para duas casas legislativas chegarem a um consenso tão rapidamente quanto o Congresso unicameral consegue fazer atualmente", escreveu Esteban Tamayo, economista para os Andes, Caribe e América Central no Citigroup, também em análise para a Americas Quartely.
O mandato-tampão exercido por Jerí tinha como data final as eleições deste ano, em que serão eleitos um novo Congresso e um novo presidente. Quatro candidatos se apresentaram para a eleição para o novo mandato interino, que terá como principal missão o acompanhamento da disputa nas urnas e a transição de poder pacífico: María Del Carmen Alva (Ação Popular), José Balcázar (Peru Livre), Héctor Acuña (Honra e Democracia) e Edgar Reymundo (Bloco Democrático Popular). Alguns observadores apontam que mesmo eles estão sujeitos à instabilidade no país.
O analista político Augusto Álvarez afirmou não ser possível "garantir que quem vai substituir Jerí consiga chegar a julho de 2026", data da eleição, considerando a volatilidade do cargo. Sobre o pleito em si, o cientista político Fernando Tuesta, siglas que estavam ao lado do líder interino deposto entram enfraquecidas na disputa indireta.
O início da sessão que definirá o próximo presidente interno está marcada para às 16h (18h em Brasília). (Com AFP, Bloomberg e El Comercio)