Histórias que a Copa vai contar: Irã chegará em meio a tensões diplomáticas, restrições de visto e conflitos de direitos humanos
A bola nem rolou e a política e a religião se anteciparam ao esporte. O Irã, classificado sem dificuldades para a Copa do Mundo de 2026 e contando com uma geração de talentos, se vê no centro de questões diplomáticas e de intolerância ao movimento LGBTQIA+. O país é o tema da terceira reportagem da série do GLOBO que adianta algumas histórias que serão pauta durante o Mundial, que começa em junho na América do Norte.
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Três vezes campeão continental, o Irã é uma das potências do futebol asiático e pode chegar ao Mundial com condições de alcançar a fase de mata-mata, algo inédito em seis participações. Isso se os atletas e membros da comissão técnica conseguirem visto de entrada para os Estados Unidos, país sede ao lado de México e Canadá.
Estados Unidos e Irã, que não mantém relações diplomáticas há quatro décadas, vivem fase de tensão, agravada em junho último, após ataques americanos a instalações nucleares iranianas. De acordo com a ordem executiva de Donald Trump, de 4 de junho, cidadãos de 12 países, incluindo o Irã, estão impedidos de entrar nos Estados Unidos. O decreto isenta as seleções nacionais desses países, mas não suas torcidas.
E o Irã fará todos os jogos da primeira fase nos Estados Unidos. A estreia será contra a Nova Zelândia, em Los Angeles. Depois, na mesma cidade, enfrenta a Bélgica e encerra a fase no Grupo G em Seattle, contra o Egito.
Para o sorteio dos grupos da Copa do Mundo, realizado em dezembro, em Washington, membros da comitiva do Irã, como Mehdi Taj, presidente da federação de futebol do país, não obtiveram visto. Três vistos foram fornecidos, incluindo para o treinador Amir Ghalenoei.
Não foi inédito: a seleção de polo não pode disputar o Mundial da modalidade nos EUA, em 2025. E diplomatas iranianos que viajaram para Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas foram barrados.
Segundo Mehdi Taj, vários jogadores iranianos podem enfrentar dificuldades para entrar nos Estados Unidos devido a preocupações com o serviço militar. Ele explica que indivíduos que serviram em unidades como a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que é sancionada pelos EUA, podem ter a entrada negada.
Assim, a Federação Iraniana de Futebol já preparou um plano B, incluindo a escolha de jogadores substitutos. Lembram ainda que a lista final da delegação também inclui pessoal de segurança ligado ao Ministério da Inteligência do Irã — uma complicação adicional.
Isso só exacerbou as tensões diplomáticas, com críticos argumentando que o governo americano está instrumentalizando a Copa do Mundo ao usar as restrições de visto para promover sua agenda política.
Para tranquilizar os ânimos, o vice-presidente da FIFA e presidente da Concacaf Victor Montagliani, afirmou que não está preocupado com a eventual participação do Irã — ou de qualquer outra nação — no torneio.
— Já temos garantias dos três governos (EUA, Canadá e México) de que as equipes classificadas poderão entrar e participar — disse Montagliani durante uma conferência para a imprensa em Londres, em junho, em que esclareceu que a aprovação de vistos é de competência dos países anfitriões e que a organização não interfere nessas questões.
Em entrevista à AFP, Sohrab Naderi, 46 anos, um corretor de imóveis de Teerã, que assistiu à Copa do Mundo de 2022 no Catar, quando os Estados Unidos venceram o Irã por 1 a 0 na fase de grupos, disse que ele e seus amigos sonhavam há anos em ver o “Team Melli” na Copa do Mundo nos Estados Unidos e que “esse sonho pode desaparecer por questões políticas, sobre as quais não temos controle”.
Para Hasti Teymourpour, de 16 anos, “todo iraniano tem o direito de apoiar sua seleção, assim como qualquer outra nação, não importa se a partida está sendo realizada nos Estados Unidos ou em outro lugar”.
Na Copa do Mundo no Catar, em 2022, a política iraniana também entrou em campo. O Irã vivia a maior onda de protestos no país desde 2009, milhares de pessoas foram às ruas pelos direitos das mulheres iranianas. Nas arquibancadas, homens indicados como espiões gravaram e fotografaram manifestações e homenagens a Mahsa Amini, jovem curda morta pela polícia do Irã por supostamente desobedecer os códigos de vestimenta locais.
Durante o Mundial, casos de agressões e repreensões por parte dos agentes iranianos foram registrados. Em relatos que circulam na internet, torcedoras afirmam que tiveram bandeiras confiscadas pela organização como forma de prevenir protestos.
No Irã, as mulheres não podem ir às arquibancadas, e o Mundial da Rússia, em 2018, foi a oportunidade para elas de frequentar um estádio pela primeira vez.
Além da questão dos vistos, o Irã contestou a realização de um “Jogo do Orgulho LGBTQIA” contra o Egito, marcado para 26 de junho em Seattle. Antes mesmo do sorteio da Copa do Mundo ser realizado, os organizadores locais em Seattle já haviam reservado uma partida do Mundial como uma oportunidade para celebrar a comunidade, uma vez que coincide com o fim de semana do Orgulho LGBTQIA+ da cidade. Mas agora, as duas equipes envolvidas na partida — Irã e Egito —se opuseram a quaisquer comemorações.
A homossexualidade ainda é ilegal no Irã e punível com pena de morte. Embora não seja proibida no Egito, membros da comunidade LGBTQIA+ podem ser processados por violarem as leis de decência pública.
A ideia de Seattle era promover atividades, como um concurso de arte, que celebrassem “a criatividade, a inclusão e o espírito vibrante da comunidade LGBTQIA+”. Seriam eventos fora da arena de jogo.
Em um comunicado enviado à CNN, um porta-voz do comitê organizador de Seattle afirmou que as atividades planejadas ainda acontecerão: “o futebol tem um poder único de unir pessoas além de fronteiras, culturas e crenças”, disse Hana Tadesse, vice-presidente de comunicações da SeattleFWC26.