Defensor da liberdade de expressão na campanha, Trump agora usa todas as ferramentas para controlar a mídia
Ao tomar posse em janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu uma salva vigorosa de aplausos quando prometeu “imediatamente acabar com toda a censura governamental e trazer de volta a liberdade de expressão para os EUA". Ele seguia o discurso que pautou seu longo caminho rumo à corrente dominante da política americana, assim como suas falas contra a “cultura do cancelamento”, chamada por ele de “a definição perfeita de totalitarismo”.
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Mesmo assim, ele está à frente da maior onda de repressão estatal contra empresas de mídia nos EUA nos tempos modernos, usando praticamente todas as ferramentas a seu dispor para erradicar reportagens e comentários que lhe desagradem. Uma ofensiva que o ex-presidente Barack Obama (2009-2017) classificou de “nível novo e perigoso de perseguição”, que ataca diretamente a Primeira Emenda da Constituição, sobre a liberdade de expressão, frequentemente citada por Trump.
A decisão tomada pela rede ABC, na quarta-feira, de suspender “indefinidamente” o programa de entrevistas de Jimmy Kimmel, após comentários feitos pelo apresentador sobre o assassinato do influenciador conservador Charlie Kirk, deixou clara a eficácia das ações do governo. Longe de criticar o silenciamento de um comediante, Trump celebrou o que chamou de “cancelamento”, declarando o incidente como uma “grande notícia” para o país em sua rede social, o Truth Social.
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O afastamento veio após uma série de acordos milionários firmados pela ABC e por outra rede, a CBS, para encerrar processos movidos por Trump que, na visão de especialistas, tinham poucas chances de prosperar. No caso da CBS, ela ainda concordou com mudanças na maneira como apresenta entrevistas de cunho político, por pressão do governo federal — em outra frente, aceitou que a Paramount Skydance, empresa que controla a rede, indicasse um ombudsman para ouvir queixas sobre a cobertura, cargo que será ocupado pelo ex-presidente de um centro de estudos conservador.
— Se somados, os ataques contra todas as nossas empresas de comunicação são certamente sem precedentes na História moderna dos Estados Unidos — afirmou Victor Pickard, professor de políticas de mídia na Universidade da Pensilvânia. — Não consigo pensar em nada parecido.
A suspensão de Kimmel foi particularmente chocante, opinou Pickard, porque ela veio logo depois do presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), Brendan Carr, indicado por Trump, sugerir que poderia considerar punições a afiliadas que transmitissem o programa.
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Carr estava entre os que acusaram Kimmel de mentir sobre as crenças políticas do assassino de Kirk, Tyler Robinson. O apresentador, em seu programa na segunda-feira, disse que os apoiadores do presidente estavam “tentando desesperadamente” apresentar Robinson como “qualquer coisa diferente deles”. As autoridades afirmam que Robinson parece ter dado uma guinada recente à esquerda em suas visões políticas.
Em entrevista ao podcaster de direita Benny Johnson, Carr disse que a FCC precisava achar novas “curas”, afirmando que “emissoras licenciadas” que retransmitem a programação da ABC precisam pressionar a rede.
Velhas táticas, novos métodos
Ao colocar o ônus sobre essas afiliadas da ABC, Carr usou as táticas já testadas pelo governo de Richard Nixon (1969-1974). Ele foi o primeiro a ameaçar agir contra elas para pressionar por mudanças nas redes nacionais, e forçá-las a seguir a linha da Casa Branca. No modelo americano, as redes precisam das afiliadas e emissoras locais para transmitir seus programas em todo o país.
Nixon viu os chefes dessas afiliadas, especialmente em áreas republicanas, como aliados em potencial contra as grandes redes baseadas em Nova York. Ele foi consumido pelo escândalo Watergate antes que sua estratégia desse resultados palpáveis, mas a ideia permaneceu no ar pelos anos e décadas seguintes.
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Quase trinta anos depois da renúncia de Nixon, afiliadas pressionaram e conseguiram tirar do ar um programa de entrevistas. Em 2002, a ABC cancelou o programa do comediante Bill Maher “Politically Incorrect” (‘Politicamente incorreto”), depois que a Casa Branca criticou comentários feitos por ele sobre os ataques de 11 de Setembro de 2001.
A diferença agora é que os comentários de Carr se referiram, de maneira explícita, ao fato de que as afiliadas são licenciadas pelo governo, e foram acompanhados por um anúncio de um grupo que controla várias dessas emissoras, Nextar, que não exibirá mais o programa de Kimmel. Pouco depois, a ABC anunciou que a suspensão seria nacional e “indefinida”, sem explicar os motivos. O imbróglio ocorre no momento em que a Nextar tenta uma fusão de emissoras que depende do aval da FCC. A Sinclair, outra dona de afiliadas, também retirou o programa de Kimmel do ar.
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Em participação no programa de Sean Hannity na rede Fox News, logo após o cancelamento, Carr foi além em suas ameaças, afirmando que os detentores de licença de transmissão devem operar “de acordo com o interesse público, conveniência e necessidade”.
A ortodoxia conservadora há tempos vê (ou via) com ressalvas ações do governo para controlar conteúdos, o que ajudou a encerrar a chamada Doutrina da Equidade, de 1949 — ela determinava, dentre outros tópicos, que as emissoras apresentassem todos os lados em temas polêmicos — durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989), e incorporou uma visão menos estrita dentro da FCC.
Para Carr, a agência “se afastou da aplicação da obrigação de seguir o interesse público”, e agora anunciou que isso estava mudando.
— Nós na FCC vamos aplicar a regra sobre o interesse público — afirmou. — Se houver emissoras que não gostem disso, elas podem devolver suas licenças.
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Durante o governo de Joe Biden (2021-2025), Carr criticou a pressão oficial sobre plataformas de redes sociais sobre a circulação de informações falsas sobre saúde e sobre eleições.
— Vivemos em meio ao aumento da censura — afirmou em discurso, em 2024. — Em qualquer momento de aumento do controle do governo, há necessariamente uma redução na liberdade de expressão, uma vez que ele é o contrapeso. A liberdade de expressão é o freio ao controle governamental.
Trump também deu uma guinada em seu discurso. Hoje, ele e seus aliados no governo atual contra qualquer tipo de moderação nas redes sociais — o que afetou diretamente o republicano e seus apoiadores quando repetiram, falsamente, que a eleição de 2020 foi roubada —, ao mesmo tempo em que tentam punir jornalistas, comediantes e comentaristas que desagradem o presidente.
Mesmo antes do assassinato de Kirk, Trump estava avançando em sua campanha contra as empresas tradicionais de comunicação, e agora acelerou o passo. Em um processo contra o New York Times, apresentado esta semana, ele citou os acordos como a ABC e a CBS como argumentos para dizer que suas ações “tinham muito mérito”. No processo, movido em um tribunal da Flórida, ele afirma que artigos e um livro publicados por profissionais do jornal foram “especificamente projetados para tentar prejudicar a reputação empresarial, pessoal e política do presidente Trump”, e pediu uma indenização de US$ 15 bilhões (R$ 79 bilhões).